Transplante Osseo na Real

Um diario sobre o tema

O médico na maca da emergência

Por: Sergio Kowalski, reumatologista

Acordei com as preocupações de sempre. Trabalho, compromissos, família e estudos. Rotina de um médico, diretor de hospital. Ao sair da cama, logo notei que havia algo errado com meu corpo. Uma dor forte nas costas, na região da coluna lombar. Como tinha que enfrentar meus compromissos, fui levando e tentando diminuir a importância da dor.

Cheguei ao hospital e pedi que uma fisioterapeuta me atendesse para diminuir a dor e eu pudesse trabalhar e me preparar para a viagem que deveria fazer em 2 dias para Salvador. Procurei a fisioterapia para não tomar remédio. Embora viva receitando para a maioria das pessoas, não gosto muito de tomar, tento sempre me superar com a força do pensamento e medidas físicas. Consegui deitar com muita dificuldade na maca da fisioterapia. A profissional foi muito paciente e imediatamente começou a fazer aplicações com gelo e aparelhos que melhoraram muito a minha dor. Ainda deitado, despachei com várias pessoas (diretor não tem sossego). Alguns vinham até o meu box e falavam em voz alta, ignorando minha dor, sofrimento e necessidade de ficar só, por alguns minutos. Outros ligavam para o celular. Eu tentei fazer de tudo para resolver as pendências e finalizar o interminável…. Consegui, mas de alguma maneira, cada palavra, cada ligação, ia comprimindo meus músculos e endurecendo minhas costas.

Ao sair da fisioterapia, fui caminhando, me apoiando nos corrimões. Não consegui dar mais que 5 passos. Meu motorista que me viu naquele estado, trouxe o carro para me ajudar a chegar ao meu gabinete. Os dois dias de espera antes da viagem foram terríveis, resisti para tomar uma medicação, crendo que como médico, e muito próximo de Deus, ficaria bom logo. Não resisti e tive que tomar injeções de corticóide, eu mesmo me aplicando, pois não queria expor minha fraqueza aos meus pares e subordinados, pois, médico em geral não pode ficar doente, e se ficar, tem que melhorar logo!

Viajei e a crise de ciática veio logo, não conseguia andar, a dor foi aumentando de intensidade e todos os planos de ir à praia, tocar meu clarinete e conversar bastante com meu irmão e amigos de Salvador se dissolveram numa inflamação intensa dos nervos lombares que me levou a procurar a emergência do hospital. Antes, porém, procurei um oriental especialista em acupuntura e manipulação na tentativa de solucionar o problema longe do meu meio. Sem obter melhora, fui ao pronto socorro e, depois de esperar muito, e ficar chorando de dor, pude ver como as coisas acontecem do outro lado da mesa de consultas. Como é grande a distância entre o poder curador e a dor humana. A dor física, a dor da pobreza, do abandono, do descaso e do desamparo. Tudo poderia demorar, menos alguma pílula salvadora para reduzir a dor e facilitar a espera duradoura…

Finalmente, após 2 dias de sofrer com o aumento da dor, passar a madrugada sem achar posição para dormir, nem sentado conseguia, esperando os minutos acelerarem o ritmo da vida. Finalmente o sol surgiu no mar e desci o elevador me apoiando numa cadeira, arrastava-me centímetro a centímetro até chegar na emergência novamente. Cada buraco da rua, cada lombada apunhalava minhas costas e me levava a um estado insuportável de tolerância.

Tive que fazer raio X e ressonância, não podia me mexer durante os exames. Vi a naturalidade com que as pessoas me pediam aquilo. Tentando usar os poderes sobrenaturais que tinha para me imobilizar, fiz o melhor que pude, mas sempre escutamos a reprimenda em voz alta e intolerante: Não mexa!!

Fui internado e salvo por vários profissionais da área de saúde. Muitos pediam licença para baixar a luz do quarto, ligar uma música calma e me tocar. Perguntavam se eu acreditava naquilo. Realmente sempre acreditei, embora não imaginasse qual o efeito que poderia ter. Percebi que após esgotar todos os analgésicos potentes, opióides ou não, antiinflamatórios esteróides ou não, várias combinações, gotas e mais gotas de esperança nas minhas veias, percebi que não adiantavam mais…

Tive que usar toda minha força e convicção para direcionar meu pensamento e gerar a auto-cura. Pensei inicialmente num jato imaginário, uma pistola que emitia uma coluna de água milagrosa, salgada, e ia diretamente nas minhas hérnias de disco lombares, extrusas. Aliviou bastante. Repeti a dose nas outras madrugadas. Quando ganhei alguns milímetros a menos de dor, mudei o jato da pistola para uma coluna de água bastante gelada, quase cristalizando minhas hérnias. Aprendi então um pouquinho da linguagem dos doentes. O que se passa no momento da dor, do desespero, do desamparo e muitas vezes do descaso e sutil sarcasmo de quem os trata.

Aprendi que os faxineiros, copeiras e todo o pessoal de apoio do hospital têm um papel muito importante no resultado do tratamento. Além de deixarem tudo em prefeito equilíbrio, conversam como quem fala o mesmo idioma dos doentes. Corrigem a claridade do quarto, apóiam as costas com uma pequena fronha dobrada que era o que faltava para apoiar meu corpo e diminuir a dor. Ajudam a levar o copo à boca e enxugar o café derramado pelo pescoço quando não conseguimos dominar nossos gestos. Nas situações mais constrangedoras, mantêm-se ao nosso lado, nos apoiando e esperando que sinalizemos o fim. Então com respeito e neutralidade, dão-nos o apoio para mantermos a dignidade naquelas situações.

Ficar doente nos ensina que quando pensamos que não podemos parar jamais, que o trabalho é a coisa mais séria e importante de nossas vidas, que nossos compromissos estão acima de qualquer objetivo de vida, que o celular não pode nunca ficar desligado. Quando, por um descuido, isso acontecer, verificar sempre as chamadas perdidas e ligar imediatamente para resolver as situações urgentes… Quando nos damos conta que não é assim, que precisamos primeiro viver e depois decantar as idéias de nossa existência, reconhecer os valores da vida, a saúde, o amor, a paz e a fraternidade, aí sim, teremos valorizado essa grande e preciosa oportunidade de estar vivo.

Como médico, aprendi que tenho papel decisivo para facilitar esse processo. Cada doente tem sua história e suas crenças. Não há tratamento igual, o doente pode e deve conversar com o médico, tentando expor seu corpo e sua alma. Cabe a nós a habilidade de decifrar essa linguagem e acelerar a busca do equilíbrio e harmonia!

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5 Comentários»

  ROSEMERI wrote @

Fiquei verdadeiramente emocionada com seu depoimento.Já conheço sua postura humana com relação a todos que o cercam, na vida pessoal e profissional.Porém , o texto foi tão verdadeiro que não deu para deixar de vê-lo na experiência descrita.
Você tem razão : no lugar do outro mudamos nossa forma de ver o mundo,vemos o que não viamos . Se todos por um unico instante ,ficassemos , no que o outro está sentido a nos perguntar o que faríamos se estivéssemos no lugar dele entenderemos que aquilo que fazemos ou dizemos pode magoar os outros, causar reações que a gente nem tinha previsto,vivenciar novos pontos de vista pode ser transformador, nos tornando pessoas mais tolerantes e conscientes. Seja em relação a estranhos, pessoas próximas, seja a nós mesmos

  Cristiane wrote @

A experiência de nos encontrarmos do outro lado da mesa do consultório nos dá a oportunidade de vermos o ser humano como um ser verdadeiramente humano que sente, sofre e se fragiliza a cada detalhe da sua doença. Concordo quando diz que cada ser deve ter seu tratamento individualizado e humanizado. Devemos tratar os DOENTES e não as doenças.
Um grande abraço, Cristiane

  LUCINHA wrote @

Amiguirmão Querido,

André Luiz ( que foi médico em sua última encarnação) nos diz:
” A DOR DESPERTA AS CONSCIÊNCIAS ADORMECIDAS.”

_________________

Sempre saímos modificamos, de alguma maneira, daquela situação em que nos encontrávamos quando ali entramos…
É a bendita oportunidade evolutiva, que a vida nos oferece, mas poucos ainda estão por reconhecê-la.
Estou feliz por você!
Bj em seu coração.

  Rubens Barros de Azevedo wrote @

Prezadíssimo Amigo Sérgio: Bom dia sempre! Quão bom é constatar que ainda há pessoas (você em especial) que se preocupam com o próximo. Os profissionais da área de saúde, com raras e louváveis exceções, não se detêm para analisar e agir como você tão bem explanou. “Sentir” a dor do próximo nos leva a cumprir o que Jesus nos ensinou: somos todos iguais perante Deus, somos todos irmãos do mesmo Pai. Chico Xavier nos ensina que, diante de situações semelhantes a que você vivenciou, é necessário agir da seguinte maneira: 1 – Aceitar; 2 – Resignar; 3 – Solucionar (ou, pelo menos, tentar…) Para concluir essa tríade, completo: Seja qual for a situação em que nos encontremos, por pior que seja, ainda poderia ser pior…
Parabenizo-o pelo depoimento corajoso e encorajador, na esperança de que tudo o que expôs, de maneira tão real e transparente, possa servir de alento para muitas pessoas que sofrem de dores lancinantes semelhantes as que, infelizmente, vivenciou. Com relação aos profissionais que têm a nobilíssima missão de curar, que possam auferir ensinamentos preciosos, mudando (se for o caso) a postura diante dos pacientes que os procuram na eterna esperança de amenizar seus sofrimentos. Que Deus o abençoe sempre (e à sua bela família) e lhe dê condições de continuar essa brilhante trajetória terrena, melhorando a humanidade com os seus ótimos exemplos de boa conduta, seja na vida profissional ou fora dela. Fraternal e saudoso abraço do seu admirador contumaz.

  larissajansen wrote @

Caro Rubens
Agradeço suas palavras e espero que possamos por meio de nossas ações e convívio, dignificar o atendimento à saúde e engrandecer o relacionamento humano. Tão belo e tão desgastado…
Estamos aí para reconhecer nossas imperfeições e corrigi-las em tempo!
Grande e fraterno abraço
Sérgio


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